Robin Hood

(Estreia da semana)

Quem for ver Robin Hood (foto) esperando torneios de arco e flecha, emboscadas na
Floresta de Sherwood, combates de cajado mano a mano, malabarismos com
espada e proezas em candelabros – ou seja, o cânone do mito do Bom
Ladrão como sacramentado pelos quinze filmes e quatro séries de TV que
o precederam – sairá seriamente desapontado.

Igualmente, quem se sentir atraído pelo repeteco da fórmula Ridley
Scott mais Russell Crowe mais drama de época antecipando uma espécie de
Gladiador na Idade Média também não vai ficar satisfeito. Certo que
desta vez temos novamente uma grande cena de batalha no primeiro ato,
filmada em diversos ângulos, inclusive com muitas câmeras-na-mão (a
tomada de um castelo francês por Ricardo Coração de Leão e suas
tropas); um grande enfrentamento no fnal do terceiro ato, com abundante
derramamento de sangue (as tropas inglesas rechaçando os invasores
franceses sob o comando do Rei Felipe Augusto); um monarca ambicioso e
fraco (o Príncipe João Sem Nome, vivido por Oscar Isaac) e vários
cortesãos intrigueiros divididos em múltiplos campos, interesses e
lealdades (Mark Strong, William Hurt e Max Von Sydow, entre outros).


As semelhanças terminam aí. O que Gladiador tinha de forte, a
clara linha narrativa estabelecida pelo argumento original de David
Franzoni (por sua vez inspirada no livro Those Who Are About to Die,
de Daniel Mannix), foi perdido aqui num roteiro colcha-de-retalhos,
resultado do processo de criatividade-por-comitê tão comum em projetos
desenvolvidos internamente pelos grandes estúdios. São duas horas e
vinte minutos do que parece o mais longo primeiro ato da história do
cinema – várias histórias que nunca chegam a engrenar totalmente nem
como um painel da época (o conturbado meio do século 13 na Europa) nem
como perfil do herói do título (aqui, um arqueiro nas tropas de Ricardo
Coração de Leão).



A proposta do roteiro original que gerou este Robin Hood era
ousada: Ethan Reif e Cyrus Voris (Kung Fu Panda, O Monge à Prova de
Balas, a série de TV Sleeper Cell) viravam o mito de Robin Hood pelo
avesso, fazendo do Xerife de Nottingham o herói e de Robin o vilão – um
vilão simpático, mas vilão. O pano de fundo, que inspirou desde as
primeiras baladas do século 14 até os romances vitorianos que deram os
contornos finais à lenda, era o mesmo: os choques entre os donos de
terra e o rei que levaram, na Inglaterra do século 13, à elaboração da
Magna Carta, a primeira “constituição” da história ocidental.



Muitas revisões, re-escritas e roteiristas depois (Brian Helgeland
ficou com o crédito final, mas pelo menos três outros roteiristas
trabalharam no texto), Robin Hood transformou-se na história de um
arqueiro em busca do que fazer, temporariamente encarregado por um
barão empobrecido (Max Von Sydow) de se tornar o marido-substituto de
Lady Marion Loxley (Cate Blanchett), enquanto ao fundo intrigas de todo
tipo ameaçam o trono do Príncipe João e a liberdade das ilhas
britânicas.



É mais uma proposta para explicar o mito de Robin Hood e teria
funcionado se a narrativa nos deixasse realmente envolvidos na trama,
investidos emocionalmente na jornada do protagonista ou nos dilemas da
sua época. Infelizmente, isso não acontece.



Apesar da dieta e da malhação, Crowe, aos 45 anos, não tem o vigor
necessário para ser o carismático líder dos oprimidos que a história
pede (Sean Connery tinha 45 anos em 1976 quando criou um inesquecível
Robin Hood madurão e aposentado no maravilhoso Robin and Marian, de
Richard Lester). Um excelente grupo de atores (inclusive um William
Hurt subutilizado), as belas locações no País de Gales e na Inglaterra
e grandes cenas de batalha são pontos altos. Mas não o bastante para
sustentar todo o peso do que poderia ser um belo épico.




Fonte: uol

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